Uma fé e um batismo

A igreja, ao longo dos anos, teve diversas opiniões sobre assuntos da própria Bíblia, levando-nos muitas vezes a formar grupos e até a menosprezar uns aos outros, como se fôssemos possuidores da verdade absoluta. Porém, em meio a tantas diferenças, precisamos lembrar que somente em Cristo encontramos a verdadeira unidade, e por isso devemos cultivar o mesmo sentimento segundo Cristo Jesus.

Mesmo assim, independentemente de pensarmos diferente em assuntos secundários, há verdades que permanecem imutáveis e inegociáveis para todos os que foram alcançados pela graça de Deus. Essas verdades são como colunas que sustentam a fé cristã: existe apenas um Deus verdadeiro, existe apenas uma fé salvadora e existe apenas um batismo que nos une ao corpo de Cristo.

O apóstolo Paulo escreveu:

5 há um só Senhor, uma só fé, um só batismo,

6 um só Deus e Pai de todos, que é sobre todos, por meio de todos e em todos.

7 E a cada um de nós foi concedida a graça, conforme a medida repartida por Cristo.

8 Por isso é que foi dito: “Quando ele subiu em triunfo às alturas, levou cativos muitos prisioneiros, e deu dons aos homens”.

Efésios 4:5-8

Há verdades que não podem ser negociadas

Este trecho das Escrituras nos mostra com grande clareza que o fundamento da nossa fé não está disponível para debate. Não importa o país, a cultura, a época ou a denominação: o evangelho é o mesmo. Cristo veio como homem, viveu sem pecado, destruiu o poder da carne, foi crucificado pelos nossos pecados e ressuscitou ao terceiro dia com glória. Ele é Deus de eternidade a eternidade e continua reinando soberanamente sobre toda a criação.

Vivemos em tempos em que muitas coisas são relativizadas. O que ontem era tratado como verdade, hoje é questionado; o que antes era firme, agora é tratado como opcional. No entanto, quando abrimos a Palavra de Deus, percebemos que há doutrinas centrais que não mudam. Elas não se alteram com a cultura, não se adaptam ao gosto do homem e não dependem da aprovação da sociedade. O Senhor permanece o mesmo, Sua Palavra continua a mesma e Seu plano de salvação não sofreu qualquer atualização humana.

Isso é extremamente importante porque, quando tudo ao nosso redor parece instável, precisamos de algo sólido onde firmar a nossa alma. E esse fundamento não está nas emoções, não está em líderes terrenos, não está em modismos religiosos e nem em discursos atraentes. Nosso fundamento é Cristo. É nEle que a igreja encontra identidade, estabilidade, direção e vida.

As discussões teológicas sobre assuntos secundários podem até ter seu lugar, desde que sejam tratadas com reverência, humildade e amor. Porém, jamais podemos permitir que essas diferenças nos façam perder de vista aquilo que é central. A fé cristã não é sustentada por preferências pessoais, mas pela revelação de Deus em Sua Palavra. Quando esquecemos isso, começamos a transformar detalhes em absolutos e acabamos dividindo o que Cristo deseja unir.

Um só Senhor acima de todos

Paulo declara: “há um só Senhor”. Essa afirmação por si só já desmonta toda confiança humana em qualquer outro mediador, guia espiritual ou sistema religioso inventado pelos homens. O senhorio de Cristo é único, perfeito e absoluto. Jesus não divide Sua glória com ninguém. Ele não é apenas um mestre entre muitos; Ele é o Senhor sobre tudo e sobre todos.

Jesus recebeu um Nome que está acima de todos os nomes. Ele é o único mediador entre Deus e os homens e, por isso, em nenhum outro há salvação. Tudo o que é necessário para a vida e piedade está unido a Ele. É Cristo quem nos chama, quem nos liberta, quem nos transforma e quem nos mantém firmes até o fim. Por isso, a igreja deve sempre lembrar que sua esperança não está em estruturas humanas, mas naquele que venceu a morte e reina eternamente.

Quando a igreja perde de vista o senhorio de Cristo, ela começa a se apegar demais a homens, tradições e preferências externas. Então surgem rivalidades, partidos e uma confiança equivocada em símbolos que, por si mesmos, não salvam ninguém. Mas quando Cristo volta a ocupar o centro, tudo é colocado em seu devido lugar. A denominação deixa de ser um troféu, o líder deixa de ser um ídolo e a comunidade volta a entender que seu maior tesouro é o próprio Senhor.

É por isso que precisamos meditar constantemente em quem Jesus realmente é. Muitos dizem amar a Cristo, mas pouco conhecem Sua glória, Sua exclusividade e Sua suficiência. Vale a pena recordar que Jesus Cristo é o mediador entre Deus e os homens, e essa verdade deve humilhar o nosso orgulho e fortalecer a nossa fé.

Uma só fé que salva

Paulo também afirma que há “uma só fé”. Isso significa que não existem múltiplos caminhos de salvação, nem versões alternativas do evangelho capazes de reconciliar o homem com Deus. A fé salvadora é aquela que repousa exclusivamente em Cristo, em Sua obra perfeita, em Seu sacrifício suficiente e em Sua ressurreição gloriosa. Não é uma fé vaga em algo superior, nem uma confiança genérica na bondade humana. Trata-se de uma fé viva no Filho de Deus.

Essa fé não é apenas um assentimento intelectual a certas doutrinas, mas uma confiança profunda que transforma toda a vida. Quem crê em Cristo passa a olhar para o pecado de outra maneira, passa a amar aquilo que antes desprezava e começa a rejeitar o que antes abraçava. A fé verdadeira produz frutos, não para merecer salvação, mas porque a graça de Deus já operou no coração.

Hoje, porém, muitos confundem fé com emoção passageira, com entusiasmo religioso ou com mera identificação cultural com o cristianismo. Há quem diga ter fé, mas vive como se Cristo não tivesse qualquer autoridade sobre sua vida. Há quem professe palavras corretas, mas mantenha o coração longe de Deus. Por isso, a igreja precisa voltar a enfatizar o que é a fé bíblica: confiança humilde, rendição sincera e perseverança em Cristo.

A verdadeira fé nos afasta da autossuficiência. Ela nos faz reconhecer que não somos capazes de salvar a nós mesmos, nem de sustentar a nossa alma por nossos próprios méritos. Quando alguém entende isso, deixa de se gloriar em suas obras e passa a descansar na graça. Essa fé não exalta o homem; ela exalta o Salvador. Essa fé não conduz ao orgulho espiritual; ela produz humildade, reverência e gratidão.

Um só batismo que nos une ao corpo de Cristo

Quando Paulo fala de “um só batismo”, ele aponta para a realidade da nossa união com Cristo e com Seu corpo. Ainda que existam debates históricos sobre questões relacionadas ao modo, ao momento ou à compreensão de aspectos do batismo, a verdade essencial permanece: todos os verdadeiros crentes pertencem ao mesmo Senhor e foram unidos ao mesmo corpo espiritual.

Esse ponto deveria gerar em nós mais reverência e menos arrogância. Muitas vezes, deixamos que pequenas diferenças nos afastem uns dos outros. Discussões sobre costumes, liturgia, organização e até preferências pessoais acabam ocupando o lugar que deveria ser exclusivamente de Cristo. Porém, Paulo nos lembra que todos recebemos a mesma graça, ainda que em medidas diferentes. Ninguém é autossuficiente, e ninguém é dono exclusivo da verdade. Somos um corpo — e um corpo só funciona bem quando seus membros trabalham em harmonia.

O problema é que, em vez de enxergarmos a igreja como um corpo, frequentemente passamos a agir como competidores espirituais. Em vez de servir, queremos vencer debates. Em vez de edificar, queremos provar superioridade. Em vez de ouvir com mansidão, respondemos com dureza. Isso é profundamente contrário ao espírito do evangelho. A unidade cristã não exige uniformidade absoluta em tudo, mas exige submissão comum ao mesmo Senhor.

É justamente aqui que a humildade se torna indispensável. Não basta conhecer textos bíblicos; é preciso ter um coração tratável diante de Deus. O saber sem amor produz frieza, e a convicção sem mansidão pode se transformar em orgulho disfarçado de zelo. Por isso, também precisamos aprender a viver com espírito ensinável, lembrando que a ira, a dureza e a amargura não produzem a justiça de Deus.

Unidade não significa abandonar a verdade

Ao falar sobre unidade, é necessário deixar algo muito claro: unidade cristã não é relativismo. Não se trata de dizer que tudo está certo, que qualquer doutrina serve ou que toda crença é igualmente válida. A verdadeira unidade bíblica nasce em torno da verdade, e não à custa dela. Paulo não está pedindo uma união construída sobre concessões doutrinárias que neguem o evangelho. Ele está mostrando que, entre os salvos, existe uma base comum que ninguém tem o direito de alterar.

Isso significa que podemos até divergir em alguns assuntos secundários, mas não podemos brincar com a pessoa de Cristo, com a salvação pela graça, com a autoridade das Escrituras ou com a exclusividade do evangelho. Quando essas verdades centrais são atacadas, não estamos mais lidando com simples diferenças internas, mas com distorções que precisam ser confrontadas à luz da Palavra.

Ao mesmo tempo, precisamos reconhecer que muitos conflitos entre irmãos não nascem de heresias explícitas, mas de orgulho, precipitação e falta de amor. Quantas discussões poderiam ser evitadas se houvesse mais oração, mais escuta e mais disposição para tratar o próximo como irmão? Quantas divisões seriam curadas se lembrássemos que ninguém conhece tudo perfeitamente e que todos dependemos da graça de Deus para crescer em entendimento?

A maturidade cristã se revela não apenas naquilo que defendemos, mas também na forma como defendemos. É possível estar certo em determinado ponto e, ainda assim, pecar profundamente no modo de expor essa verdade. O tom arrogante, a zombaria, a impaciência e a disposição de humilhar outros não combinam com o caráter de Cristo. A verdade de Deus jamais precisa da soberba humana para se sustentar.

Cristo é a cabeça, nós somos o corpo

Cristo é o centro da igreja. Ele é a cabeça, e nós somos Seus membros. Quando perdemos isso de vista, a divisão cresce; quando voltamos os olhos para Ele, a unidade floresce. Por isso devemos nos esforçar para manter a unidade do Espírito, lembrando que fomos chamados a uma só esperança: a gloriosa redenção em Cristo.

A imagem do corpo é extremamente rica porque nos ensina que ninguém foi chamado para caminhar sozinho e ninguém possui em si mesmo tudo o que a igreja precisa. Deus distribuiu dons, capacidades e medidas de graça de maneira diversa. Isso deveria nos conduzir a uma postura de interdependência, serviço e gratidão. Em vez de desprezar o outro, devemos reconhecer que o próprio Cristo decidiu operar por meio de diferentes membros em Seu corpo.

Quando entendemos isso, abandonamos a mentalidade de comparação e competição. O objetivo não é mostrar quem sabe mais, quem fala melhor, quem lidera mais ou quem aparece mais. O objetivo é que Cristo seja glorificado em Seu povo. Toda vez que o homem busca seu próprio brilho, a igreja adoece. Toda vez que Cristo é exaltado, o corpo é fortalecido.

Paulo ainda lembra que a cada um foi concedida a graça conforme a medida repartida por Cristo. Isso significa que tudo o que temos veio dEle. Se temos entendimento, veio dEle. Se temos dons, vieram dEle. Se temos firmeza, veio dEle. Se temos oportunidades de servir, tudo procede da Sua mão. Portanto, ninguém tem motivo para vanglória. Toda a glória pertence ao Senhor.

A obra consumada de Cristo é suficiente

O fundamento da nossa unidade não está apenas em ideias comuns, mas na própria obra consumada de Cristo. Foi na cruz que o Senhor comprou Seu povo. Foi por Seu sangue que pecadores foram reconciliados com Deus. Foi pela Sua vitória que inimigos foram feitos filhos. A igreja não foi formada por afinidade humana, mas pela redenção operada pelo Filho de Deus.

Isso nos lembra que a nossa segurança espiritual não está em desempenho pessoal, tradição religiosa ou mérito humano. Tudo repousa na suficiência de Cristo. Ele viveu a vida que não poderíamos viver, morreu a morte que merecíamos e ressuscitou para a nossa justificação. Não há complemento humano para essa obra. Não há acréscimo necessário. Não há outro fundamento além dEle.

Quando essa verdade é esquecida, o cristianismo se torna pesado, confuso e centrado no homem. Mas quando a cruz volta ao centro, a alma descansa, a igreja se humilha e o louvor floresce com pureza. É por isso que a fé cristã permanece inseparável da mensagem de que em Cristo tudo foi plenamente realizado para a salvação do pecador. E isso aparece de forma tão bela quando lembramos que a obra de expiação foi consumada em Cristo.

Humildade, mansidão e amor entre irmãos

Ó querido irmão, que Cristo seja o seu único Senhor, que sua fé esteja firmemente ancorada nEle e apenas nEle. Que sua confiança não esteja em denominações, tradições ou opiniões humanas, mas no evangelho eterno. Lembre-se de que somos parte do mesmo corpo, servimos ao mesmo Deus e caminhamos para o mesmo destino eterno. Nossa maior glória não está em saber tudo, mas em conhecer aquele que é a Verdade.

Que essas palavras nos levem a viver em humildade, mansidão e amor, reconhecendo que não somos rivais, mas irmãos unidos pelo sangue de Cristo. Precisamos aprender a conversar sem desprezar, corrigir sem esmagar, exortar sem ofender e defender a verdade sem perder o espírito de graça. A firmeza bíblica nunca deve ser confundida com orgulho carnal.

Quando a igreja vive assim, o mundo vê algo raro: pessoas diferentes, com histórias diferentes, dons diferentes e níveis diferentes de maturidade, mas unidas por um mesmo Salvador. Essa é uma das marcas mais belas do cristianismo. Não é uma unidade superficial, baseada em aparência; é uma unidade espiritual, enraizada na verdade e sustentada pelo amor de Deus.

Que o Senhor nos livre da arrogância religiosa, da necessidade de vencer discussões e da tentação de transformar irmãos em adversários. Que Ele nos ensine a amar a verdade sem perder a mansidão, a valorizar a doutrina sem abandonar o amor e a permanecer firmes sem esquecer que também somos dependentes da graça todos os dias. E que, acima de tudo, nossa vida exalte aquele que é Senhor sobre todos: Jesus Cristo.

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