A sabedoria dá vida aos seus possuidores

Há momentos em que olhar para trás parece inevitável. Lembramos de épocas que consideramos melhores, oportunidades que já passaram, pessoas que fizeram parte da nossa vida ou circunstâncias que, vistas a partir do presente, parecem muito mais favoráveis do que são agora. É fácil, então, cair em uma pergunta que acompanha o ser humano há gerações: “Por que antigamente as coisas eram melhores?”.

Curiosamente, essa inquietação não é nova. Há milhares de anos, o livro de Eclesiastes já advertia sobre o perigo de idealizar o passado e compará-lo constantemente com o presente.

Eclesiastes 7:10-12 nos leva a refletir justamente sobre isso. A passagem começa questionando a nostalgia pelos “dias passados”, depois apresenta o valor da sabedoria e, finalmente, faz uma poderosa comparação entre a proteção que as riquezas podem oferecer e aquela que a sabedoria proporciona. A conclusão é extraordinária: a sabedoria dá vida aos que a possuem.

O que essa afirmação realmente significa? De que maneira a sabedoria pode preservar a nossa vida? E, acima de tudo, como podemos aplicar esse ensinamento às nossas decisões cotidianas?

Não viva perguntando por que o passado foi melhor

Eclesiastes 7:10 nos adverte:

“Não digas: Por que foram os dias passados melhores do que estes? Porque não provém da sabedoria esta pergunta.”

O escritor não está dizendo que seja errado lembrar do passado. Também não afirma que todas as épocas sejam iguais ou que nunca tenham existido tempos objetivamente melhores em determinados aspectos.

O problema está em idealizar o passado a ponto de transformá-lo em uma medida pela qual desprezamos permanentemente o presente.

Nossa memória pode ser seletiva. Com o passar do tempo, costumamos nos lembrar com facilidade daquilo que desfrutávamos e esquecer parte das dificuldades que também enfrentávamos.

Pensamos: “Antigamente as pessoas eram diferentes”, “antes havia mais respeito”, “antes tudo era mais simples”, “antes eu era mais feliz”.

Mas aqueles dias também tinham problemas.

A geração que hoje lembramos com nostalgia provavelmente olhava para uma geração anterior e dizia exatamente a mesma coisa.

Quando vivemos convencidos de que todo tempo passado foi melhor, podemos acabar desperdiçando as oportunidades que Deus colocou diante de nós hoje.

A sabedoria, por outro lado, nos ensina a aprender com o passado sem ficarmos presos a ele.

Há experiências anteriores que podem se tornar grandes mestres. Podemos lembrar dos nossos erros para não repeti-los, agradecer pelas bênçãos recebidas e conservar as lições que aprendemos. Mas existe uma enorme diferença entre aprender com o ontem e viver desejando voltar ao ontem.

O ontem pode nos ensinar, mas a nossa vida continua no presente.

A sabedoria nos ajuda a interpretar corretamente a nossa realidade

Uma das grandes vantagens da sabedoria é que ela muda a nossa maneira de observar as circunstâncias.

Duas pessoas podem enfrentar exatamente o mesmo problema e reagir de maneiras completamente diferentes.

Uma pode agir impulsivamente, deixar-se dominar pelas emoções e tomar uma decisão que torne a situação consideravelmente pior. A outra pode parar, analisar as consequências, buscar conselho, orar e escolher uma resposta muito mais prudente.

O problema era o mesmo.

A diferença estava na maneira de enfrentá-lo.

Por isso, a sabedoria possui um valor extraordinariamente prático. Ela não consiste simplesmente em acumular conhecimentos ou saber muitas coisas. Uma pessoa pode possuir uma enorme quantidade de informação e, ainda assim, tomar decisões desastrosas.

A sabedoria consiste em saber aplicar corretamente aquilo que conhecemos.

Além disso, de uma perspectiva bíblica, a verdadeira sabedoria começa quando reconhecemos a Deus e permitimos que seus princípios orientem as nossas decisões.

A sabedoria nos ajuda a perguntar antes de agir:

  • Isto que estou fazendo é correto?
  • Que consequências essa decisão pode produzir?
  • Estou reagindo por causa da raiva ou estou pensando com clareza?
  • Estou tomando essa decisão apenas porque ela me beneficia agora?
  • O que a Palavra de Deus diz sobre isso?

Uma pequena pausa antes de agir pode evitar anos de consequências.

A sabedoria é boa juntamente com uma herança

Eclesiastes continua dizendo:

“Boa é a sabedoria, havendo herança, e de proveito, para os que veem o sol.”

A ideia é muito interessante porque o escritor coloca a sabedoria ao lado de algo que todos compreendemos facilmente como valioso: uma herança.

Receber bens, propriedades ou recursos financeiros pode representar uma enorme vantagem. Uma pessoa que recebe uma boa herança começa com oportunidades que outras talvez precisem trabalhar durante décadas para conseguir.

Mas existe uma pergunta ainda mais importante:

O que ela fará com aquilo que recebeu?

Uma grande quantidade de recursos nas mãos de alguém sem sabedoria pode desaparecer surpreendentemente rápido.

Por outro lado, alguém que possui sabedoria pode administrar corretamente até mesmo recursos limitados, aprender com as circunstâncias, identificar oportunidades e evitar decisões destrutivas.

Isso demonstra que não importa apenas o que temos. Também importa profundamente quem somos e como administramos aquilo que temos.

Podemos pedir constantemente a Deus novas oportunidades, mais recursos, melhores condições ou portas abertas. Mas também deveríamos pedir sabedoria para administrar corretamente aquilo que Ele já colocou em nossas mãos.

Porque uma bênção mal administrada pode acabar sendo desperdiçada.

O dinheiro pode proteger

O versículo 12 faz uma comparação particularmente interessante:

“Porque a sabedoria serve de defesa, como de defesa serve o dinheiro.”

A Bíblia não pretende negar uma realidade evidente: os recursos financeiros oferecem certo grau de proteção.

O dinheiro pode nos permitir ter alimento, um lugar para morar, acesso à educação, transporte, resolver emergências e enfrentar muitas dificuldades que seriam consideravelmente mais complicadas sem recursos.

Por isso, Eclesiastes não apresenta aqui o dinheiro como algo inútil.

Ele o apresenta como uma defesa.

No entanto, imediatamente introduz uma diferença fundamental.

Há coisas das quais o dinheiro pode nos proteger, mas também existem situações diante das quais o dinheiro é completamente insuficiente.

O dinheiro pode pagar uma casa, mas não garante um lar em paz.

Pode pagar excelentes serviços, mas não pode comprar integridade.

Pode proporcionar conforto, mas não necessariamente tranquilidade.

Pode abrir determinadas portas, mas não pode nos ensinar qual porta devemos atravessar.

E é aqui que aparece a superioridade da sabedoria.

A sabedoria pode proteger você das suas próprias decisões

Muitas vezes pensamos nos perigos da vida como ameaças externas: acidentes, doenças, crises econômicas, conflitos ou circunstâncias inesperadas.

Mas alguns dos maiores danos que uma pessoa experimenta podem começar com uma decisão errada.

Uma palavra pronunciada em um momento de ira pode destruir um relacionamento.

Uma decisão financeira impulsiva pode produzir anos de dificuldades.

Uma amizade errada pode nos levar por caminhos que nunca imaginamos percorrer.

Uma resposta orgulhosa pode fechar uma oportunidade.

Uma tentação aceita durante alguns minutos pode produzir consequências que durem décadas.

Por isso, a sabedoria funciona como proteção.

Ela não necessariamente elimina todos os problemas, mas pode impedir que nós mesmos criemos muitos deles.

Pensemos, por exemplo, em alguém que recebe uma provocação. Essa pessoa tem várias possibilidades. Pode responder imediatamente e transformar uma pequena discussão em um enorme conflito. Também pode ficar em silêncio, esperar até se acalmar e responder quando tiver domínio sobre suas emoções.

O que a protegeu?

A sabedoria.

Nada espetacular aconteceu. Ninguém viu um milagre visível. No entanto, uma decisão prudente possivelmente evitou toda uma cadeia de problemas.

Muitas vezes, a proteção de Deus também se manifesta por meio da sabedoria que nos impede de entrar onde nunca deveríamos ter entrado.

“A sabedoria dá vida aos seus possuidores”

Aqui chegamos à grande conclusão de Eclesiastes 7:12:

“Mas a excelência da sabedoria é que ela dá vida ao seu possuidor.”

Essa é a vantagem que o escritor deseja destacar.

O dinheiro pode funcionar como defesa, mas a sabedoria possui uma capacidade superior: preserva a vida daquele que a possui.

Isso pode ser entendido de uma maneira profundamente prática.

A pessoa sábia reconhece perigos que outros ignoram.

Sabe quando falar e quando ficar em silêncio.

Compreende que nem todas as oportunidades devem ser aceitas.

Não confunde coragem com imprudência.

Não permite que uma emoção momentânea decida assuntos permanentes.

Ouve conselhos.

Aprende com seus erros.

Reconhece suas limitações.

Pensa nas consequências.

E, acima de tudo, entende que precisa da direção de Deus.

Cada uma dessas características pode literalmente proteger o rumo de uma vida.

A sabedoria não significa que nunca cometeremos erros. Nenhum ser humano alcança esse nível de perfeição. Significa que desenvolvemos uma disposição constante para aprender, corrigir nossos caminhos e agir de acordo com princípios que produzem bons frutos.

A sabedoria também consiste em reconhecer que podemos estar errados

Um dos maiores inimigos da sabedoria é acreditar que já a possuímos completamente.

Uma pessoa verdadeiramente sábia sabe ouvir.

Pode reconsiderar uma decisão.

Pode aceitar uma correção.

Pode reconhecer: “Eu errei”.

Isso exige humildade.

Por outro lado, quando alguém está convencido de que sempre tem razão, deixa muito pouco espaço para aprender.

Por isso, devemos ter cuidado quando buscamos conselhos apenas de pessoas que sabemos que concordarão conosco.

Às vezes, não queremos orientação. Queremos aprovação.

A sabedoria bíblica exige uma atitude diferente.

Antes de tomar decisões importantes, devemos estar dispostos a considerar aspectos que talvez não tenhamos percebido. Deus pode usar sua Palavra, a oração, as circunstâncias e o conselho de pessoas maduras para nos mostrar algo que a emoção do momento não nos permite reconhecer.

Aceitar uma correção hoje pode evitar uma consequência amanhã.

Você não precisa saber tudo para viver com sabedoria

Também devemos evitar outro extremo.

Falar constantemente sobre sabedoria poderia nos levar a pensar que precisamos compreender perfeitamente cada situação antes de tomar qualquer decisão.

Isso é impossível.

Nunca teremos todas as informações.

Haverá momentos em que não saberemos exatamente o que acontecerá. Teremos que tomar decisões sem conhecer todos os resultados possíveis.

A sabedoria não consiste em controlar o futuro.

Consiste em agir corretamente com a luz que temos agora.

Podemos nos perguntar: quais princípios bíblicos conheço que se aplicam a esta situação? Qual decisão reflete integridade? Qual opção evita um risco desnecessário? Busquei conselho? Orei sobre isso?

Depois de fazer a nossa parte, também precisamos confiar em Deus.

A sabedoria reconhece que somos responsáveis pelas nossas decisões, mas que não somos donos do amanhã.

Peça a Deus mais do que recursos: peça sabedoria

É natural apresentar nossas necessidades diante de Deus.

Pedimos provisão, oportunidades de trabalho, crescimento, estabilidade financeira, portas abertas e soluções para nossos problemas.

Mas Eclesiastes 7:10-12 nos convida a valorizar algo que pode ser ainda mais importante do que muitas das coisas que pedimos:

sabedoria para administrar a nossa vida.

De que adianta receber uma oportunidade extraordinária se não sabemos aproveitá-la?

De que adianta possuir recursos se nossas decisões os destroem?

De que adianta conseguir aquilo que tanto desejávamos se depois descobrimos que não estávamos preparados para lidar com isso?

Precisamos pedir a Deus não apenas que mude as nossas circunstâncias, mas também que nos ensine a agir corretamente dentro delas.

Talvez algumas das nossas orações precisem começar a mudar.

“Senhor, dá-me sabedoria para responder.”

“Dá-me sabedoria para administrar.”

“Dá-me sabedoria para escolher.”

“Dá-me sabedoria para saber quando esperar.”

“Dá-me sabedoria para reconhecer aquilo de que devo me afastar.”

“Dá-me sabedoria para aproveitar corretamente aquilo que colocaste em minhas mãos.”

Uma riqueza que pode nos acompanhar sempre

Eclesiastes nos apresenta uma realidade que continua relevante milhares de anos depois.

Podemos perder dinheiro.

Podemos perder oportunidades.

As circunstâncias podem mudar.

Uma época favorável pode terminar e outra muito mais difícil pode começar.

Mas a sabedoria adquirida ao longo da nossa caminhada pode nos acompanhar através de todas essas etapas.

Uma pessoa sábia pode atravessar tempos de abundância sem permitir que a abundância a destrua e tempos de escassez sem permitir que o desespero governe todas as suas decisões.

Pode aprender com o passado sem viver presa a ele.

Pode utilizar os recursos sem transformá-los em sua única segurança.

Pode reconhecer seus erros e corrigir o rumo.

Pode parar antes de tomar uma decisão da qual se arrependerá depois.

Por isso, o ensinamento de Eclesiastes 7:10-12 continua tendo tanta força.

Não viva se perguntando constantemente por que os dias anteriores pareciam melhores. Aprenda com eles.

Não meça sua segurança apenas pela quantidade de recursos que possui. Administre-os com sabedoria.

Não tome decisões permanentes impulsionado por emoções temporárias.

Busque conselho. Ouça. Aprenda. Ore. Pense nas consequências.

E, acima de tudo, procure essa sabedoria que nasce de uma caminhada de acordo com os princípios de Deus.

Porque podemos acumular muitas coisas durante a nossa existência, mas poucas terão um impacto tão profundo sobre o nosso futuro quanto aprender a viver sabiamente.

O dinheiro pode oferecer proteção diante de determinadas circunstâncias. Uma herança pode nos proporcionar vantagens. As oportunidades podem abrir novos caminhos.

Mas a sabedoria nos ensina o que fazer com tudo isso.

E essa é precisamente a sua grande vantagem:

a sabedoria dá vida aos seus possuidores.

Em terra seca e árida Deus derrama a Sua chuva

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