Resenha do editor
Continuamos com a série de sermões de A. W. Pink intitulada “The Seven Sayings of the Savior on the Cross”. Nesta ocasião, chegamos à quinta palavra, conhecida como a palavra de sofrimento, onde o Senhor Jesus declara: “Tenho sede”.
Esta breve, porém profunda expressão revela de maneira clara a verdadeira humanidade de Cristo. Aquele que é o Senhor da glória, o Criador de todas as coisas, experimenta a mais extrema fraqueza física. No entanto, esta palavra não apenas manifesta seu sofrimento corporal, mas também sua perfeita submissão às Escrituras, cumprindo cada detalhe profético mesmo em meio à sua agonia.
Convidamos o leitor a meditar nesta palavra, onde a dor do Salvador se une à fidelidade divina, lembrando-nos de que cada aspecto do seu sofrimento foi necessário para realizar a obra da redenção. Aqui vemos o Cristo que padeceu em nosso lugar, e cujo sofrimento nos aponta tanto para o seu amor quanto para a sua obediência perfeita.
Sermão de A. W. Pink: A Palavra de sofrimento
“Tenho sede”: o clamor do Salvador
“Sabendo Jesus que tudo já estava consumado, para que a Escritura se cumprisse, disse: Tenho sede” (João 19:28).
“Tenho sede.” Estas palavras foram pronunciadas pelo Salvador sofredor pouco antes de inclinar a cabeça e entregar o espírito. São registradas unicamente pelo evangelista João e, como veremos, é apropriado que tenham lugar em seu evangelho, pois não apenas evidenciam sua humanidade, mas também manifestam sua glória divina.
“Tenho sede.” Que texto para um sermão! É breve, é verdade, mas quão completo, quão expressivo e quão trágico! O Criador do céu e da terra com os lábios ressequidos! O Senhor da glória necessitando de uma bebida! O Amado do Pai clamando “Tenho sede”! Que cena! Que palavra é esta! Evidentemente, nenhuma pena não inspirada poderia ter traçado tal quadro.
O cumprimento profético nas Escrituras
Antigamente, o Espírito de Deus moveu Davi a dizer do Messias vindouro: “Deram-me fel por alimento, e na minha sede me deram a beber vinagre” (Sal. 69:21). Quão maravilhosamente completa foi a visão profética! Nenhum detalhe essencial faltou nela. Cada aspecto importante da grande tragédia foi escrito de antemão. A traição por um amigo íntimo (Sal. 41:9), o abandono dos discípulos por se escandalizarem d’Ele (Sal. 31:11), a acusação falsa (Sal. 35:11), o silêncio diante dos seus juízes (Isa. 53:7), o ser achado inocente (Isa. 53:9), o ser contado com os transgressores (Isa. 53:12), a crucificação (Sal. 22:16), o escárnio dos espectadores (Sal. 109:25), a zombaria por não ser livrado (Sal. 22:7-8), a divisão de suas vestes (Sal. 22:18), a oração por seus inimigos (Isa. 53:12), o ser desamparado por Deus (Sal. 22:1), a sede (Sal. 69:21), a entrega do seu espírito nas mãos do Pai (Sal. 31:5), o não quebrantamento de seus ossos (Sal. 34:20), o sepultamento no túmulo de um rico (Isa. 53:9); tudo claramente anunciado séculos antes de acontecer. Que evidência tão convincente da inspiração divina das Escrituras! Que firme fundamento, santos do Senhor, está posto para a vossa fé em sua excelente palavra!
Lições da quinta palavra da cruz
“Tenho sede.” O fato de que isso seja registrado como uma das sete palavras do nosso Senhor na cruz indica que é uma palavra de precioso significado, uma palavra que deve ser guardada em nossos corações, uma palavra digna de profunda meditação. Temos visto que cada uma das expressões anteriores do Salvador sofredor tem muito a nos ensinar; certamente esta não é uma exceção. O que devemos então aprender dela? Quais são as lições que esta quinta palavra da cruz nos ensina? Que o Espírito da verdade ilumine o nosso entendimento enquanto procuramos fixar nossa atenção nela.
1. Aqui temos uma evidência da humanidade de Cristo.
“Tenho sede.”
O Senhor Jesus era verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, mas também era verdadeiro homem de verdadeiro homem. Isto é algo que deve ser crido e não algo para que a razão orgulhosa o analise. A pessoa do nosso adorável Salvador não é um objeto apropriado para a análise intelectual; antes, devemos nos inclinar diante d’Ele em adoração. Ele mesmo nos advertiu: “Ninguém conhece o Filho, senão o Pai” (Mateus 11:27). E novamente, o Espírito de Deus por meio do apóstolo Paulo declara: “Indiscutivelmente, grande é o mistério da piedade: Deus foi manifestado em carne” (1 Tim. 3:16).
Embora haja muito acerca da pessoa de Cristo que não podemos compreender com o nosso entendimento, há n’Ele tudo para admirar e adorar: principalmente sua divindade e sua humanidade, e a perfeita união de ambas em uma só pessoa. O Senhor Jesus não era um homem divino, nem um Deus humanizado; era o Deus-homem. Sempre Deus, e agora também para sempre homem.
Quando o Amado do Pai se encarnou, não deixou de ser Deus, nem deixou de possuir nenhum de seus atributos divinos, embora tenha se esvaziado da glória que tinha com o Pai antes que o mundo existisse. Mas na encarnação, o Verbo se fez carne e habitou entre os homens. Não deixou de ser o que era, mas tomou para si o que antes não tinha: uma humanidade perfeita.
A divindade e a humanidade do Salvador foram ambas contempladas nas profecias messiânicas. A profecia apresentava aquele que havia de vir às vezes como divino, e outras como humano. Ele era o Renovo “do Senhor” (Isa. 4:2). Era Maravilhoso, Conselheiro, Deus forte, Pai eterno, Príncipe da paz (Isa. 9:6). Aquele que sairia de Belém e seria governante em Israel, tinha suas origens desde a eternidade (Miq. 5:2). Era o próprio Senhor quem viria subitamente ao seu templo (Mal. 3:1).
E, no entanto, também era a semente da mulher (Gên. 3:15); um profeta como Moisés (Deut. 18:18); descendente de Davi (2 Sam. 7:12-13). Era o servo do Senhor (Isa. 42:1). Era o homem de dores (Isa. 53:3). E é no Novo Testamento que vemos essas duas linhas proféticas perfeitamente harmonizadas.
Aquele que nasceu em Belém era o Verbo divino. A encarnação não significa que Deus simplesmente se manifestou como homem. O Verbo se fez carne; tornou-se o que antes não era, sem jamais deixar de ser o que sempre foi. Ele, que estava em forma de Deus e não considerou o ser igual a Deus como algo a que devia apegar-se, “esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, tornando-se semelhante aos homens” (Fil. 2:6-7). O menino de Belém era Emanuel — Deus conosco — não era apenas uma manifestação de Deus, mas Deus manifestado em carne. Era Filho de Deus e Filho do Homem. Não duas pessoas, mas uma só pessoa com duas naturezas: divina e humana.
Enquanto esteve na terra, o Senhor Jesus deu plena evidência de sua divindade. Falou com sabedoria divina, agiu com santidade divina, manifestou poder divino e demonstrou amor divino. Lia os pensamentos dos homens, movia seus corações e dobrava suas vontades. Quando exercia seu poder, toda a natureza obedecia. Uma palavra sua e a doença fugia, a tempestade se acalmava, os demônios se retiravam, os mortos ressuscitavam. Tão verdadeiramente era Deus manifestado em carne que pôde dizer: “Quem me vê a mim, vê o Pai”.
Mas também, enquanto habitou entre os homens, deu plena evidência de sua humanidade — uma humanidade sem pecado. Entrou no mundo como um menino e foi envolto em faixas (Lucas 2:7). Como criança cresceu em sabedoria e estatura (Lucas 2:52). Como jovem fazia perguntas (Lucas 2:46). Como homem cansou-se (João 4:6). Teve fome (Mateus 4:2). Dormiu (Marcos 4:38). Admirou-se (Marcos 6:6). Chorou (João 11:35). Orou (Marcos 1:35). Alegrou-se (Lucas 10:21). Gemeu (João 11:33). E aqui, em nosso texto, clamou: “Tenho sede”.
Isto evidenciava sua humanidade. Deus não tem sede. Os anjos não a têm. Nós não a teremos na glória: “Nunca mais terão fome, nunca mais terão sede” (Apoc. 7:16). Mas agora temos sede porque somos humanos e vivemos em um mundo de sofrimento. E Cristo teve sede porque era homem: “Por isso convinha que, em tudo, fosse semelhante aos seus irmãos” (Heb. 2:17).
2. Aqui vemos a intensidade dos sofrimentos de Cristo.
“Tenho sede.”
Consideremos primeiro este clamor do Salvador como uma expressão do seu sofrimento corporal. Para compreender algo do que está por trás dessas palavras, devemos recordar e revisar o que as precedeu. Depois de instituir a Ceia no cenáculo, seguido do extenso discurso pascal aos seus apóstolos, o Redentor dirigiu-se ao Getsêmani, e ali, durante uma hora, passou pela mais terrível agonia. Sua alma estava profundamente triste. Ao contemplar o terrível cálice, não derramou simples gotas de suor, mas grandes gotas de sangue.
Sua luta no jardim foi interrompida pela chegada do traidor acompanhado pela multidão que vinha prendê-lo. Foi levado diante de Caifás, e embora fosse meia-noite, foi interrogado e condenado. O Salvador foi mantido até a manhã, e depois de longas horas de espera foi levado diante de Pilatos. Após um longo julgamento, foi ordenado que fosse açoitado. Em seguida, foi conduzido, provavelmente através da cidade, ao tribunal de Herodes, e depois de uma breve audiência diante desse governante, foi entregue nas mãos de soldados brutais. Novamente foi zombado e açoitado, e outra vez foi levado pela cidade de volta a Pilatos. Houve novamente demoras, formalidades de julgamento —se tal farsa merece esse nome— e finalmente foi pronunciada a sentença de morte.
Então, com as costas ensanguentadas, carregando sua cruz sob o calor do sol que já se aproximava do meio-dia, subiu pelas ásperas alturas do Gólgota. Ao chegar ao lugar de execução, suas mãos e pés foram pregados no madeiro. Durante três horas ficou ali pendurado, enquanto os implacáveis raios do sol caíam sobre sua cabeça coroada de espinhos. Depois vieram as três horas de escuridão, já passadas.
Aquela noite e aquele dia foram horas em que uma eternidade foi comprimida. No entanto, durante todo esse tempo não saiu de seus lábios uma única palavra de queixa. Não houve murmuração, nem súplica por misericórdia. Todos os seus sofrimentos foram suportados em majestoso silêncio. Como ovelha muda diante de seus tosquiadores, não abriu a boca. Mas agora, ao final, com todo o seu corpo destroçado pela dor e sua boca ressequida, clama: “Tenho sede”. Não foi um pedido de compaixão, nem uma solicitação para aliviar seu sofrimento; foi a expressão da intensidade da agonia que estava suportando.
“Tenho sede.” Isto foi mais do que uma sede comum. Havia algo mais profundo do que o sofrimento físico por trás disso. Uma comparação cuidadosa do nosso texto com Mateus 27:48 mostra que essas palavras vieram imediatamente após a quarta expressão do Salvador na cruz — “Eli, Eli, lama sabactani”—, pois enquanto o soldado aproximava a esponja com vinagre de seus lábios, alguns dos espectadores gritavam: “Deixai, vejamos se Elias vem salvá-lo”.
Sabemos que as aflições da alma afetam o corpo, desgastando seus nervos e debilitando sua força: “O espírito abatido seca os ossos” (Prov. 17:22); “Enquanto calei, envelheceram os meus ossos pelo meu gemido durante todo o dia. Porque de dia e de noite a tua mão pesava sobre mim; o meu vigor se tornou em sequidão de estio” (Sal. 32:3-4). O corpo e a alma se afetam mutuamente.
Recordemos que o Salvador acabava de sair das três horas de escuridão, durante as quais o rosto de Deus se havia apartado d’Ele enquanto suportava a intensidade de sua ira derramada. Este clamor de sofrimento corporal nos fala, então, da severidade do conflito espiritual pelo qual acabava de passar. Falando profeticamente pela boca de Jeremias acerca dessa mesma hora, disse: “Não vos comove isto, a todos vós que passais pelo caminho? Olhai e vede se há dor como a minha dor, que me sobreveio; pois o Senhor me afligiu no dia do furor da sua ira. Do alto enviou fogo aos meus ossos, o qual prevaleceu contra eles; estendeu uma rede aos meus pés, fez-me voltar para trás; deixou-me desolado, todo o dia enfermo” (Lam. 1:12-13).
Sua “sede” foi o efeito da agonia de sua alma sob o ardor da ira de Deus. Indicava a secura da terra onde o Deus vivo não está. Mas ainda mais: expressava claramente seu anseio de comunhão com Deus novamente, de quem havia estado separado durante três horas. Não foi o próprio Cristo quem disse pelo espírito de profecia, imediatamente após sair da escuridão: “Assim como o cervo brama pelas correntes das águas, assim suspira a minha alma por ti, ó Deus. A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo; quando entrarei e me apresentarei diante de Deus?” Não identificam as palavras seguintes aquele que fala e revelam o momento em que esse anseio foi expresso? “As minhas lágrimas têm sido o meu alimento de dia e de noite, enquanto me dizem continuamente: Onde está o teu Deus?” (Sal. 42:1-3).
3. Aqui vemos a profunda reverência do nosso Senhor pelas Escrituras.
“Tenho sede.”
Quão constantemente a mente do Salvador se voltava para os sagrados oráculos! Ele vivia verdadeiramente de toda palavra que sai da boca de Deus. Era o “homem bem-aventurado” que meditava na lei de Deus de dia e de noite (Sal. 1). A Palavra escrita formava seus pensamentos, enchia seu coração e regulava seus caminhos. As Escrituras são a revelação da vontade do Pai, e isso era sempre o seu deleite.
Na tentação, o que estava escrito foi sua defesa. Em seu ensino, os estatutos do Senhor eram sua autoridade. Em suas controvérsias com os escribas e fariseus, seu apelo era sempre à lei e ao testemunho. E agora, na hora de sua morte, sua mente se fixa na palavra da verdade.
Para captar o significado principal desta quinta palavra da cruz devemos observar seu contexto: “Sabendo Jesus que tudo já estava consumado, para que a Escritura se cumprisse, disse: Tenho sede” (João 19:28). A referência é ao Salmo 69, outro dos salmos messiânicos que descreve com grande detalhe sua paixão. Nele, o espírito de profecia havia declarado: “Deram-me fel por alimento, e na minha sede me deram a beber vinagre” (v. 21).
Isto ainda não havia sido cumprido. As predições anteriores já haviam se realizado: havia afundado no lodo profundo (v. 2); fora odiado sem causa (v. 4); havia suportado opróbrio e vergonha (v. 7); tornara-se estranho aos seus irmãos (v. 8); fora objeto de provérbio e canção dos bêbados (vv. 11-12); havia clamado a Deus em sua angústia (vv. 17-20). E agora faltava apenas que lhe oferecessem vinagre e fel para beber, e para cumprir isso clamou: “Tenho sede”.
“Sabendo Jesus que tudo estava consumado…” Que domínio perfeito tinha o Salvador de si mesmo! Havia estado seis horas na cruz, havia passado por sofrimentos incomparáveis, e ainda assim sua mente permanecia clara e sua memória intacta. Tinha diante de si, com perfeita clareza, toda a Palavra de Deus. Repassou todo o alcance da profecia messiânica. Lembrou-se de que restava uma profecia por cumprir. Não omitiu nada. Que prova de que estava acima de todas as circunstâncias!
Antes de continuar, façamos uma aplicação a nós mesmos. Temos visto como o Salvador se submeteu à autoridade das Escrituras tanto em sua vida quanto em sua morte; leitor cristão, como é contigo? É a Palavra de Deus tua autoridade final? Vês nela a revelação da vontade de Deus para ti? É lâmpada para os teus pés? Caminhas na sua luz? Seus mandamentos têm autoridade sobre a tua vida? Tu realmente a obedeces?
Podes dizer com Davi: “Escolhi o caminho da verdade; propus-me seguir os teus juízos. Apeguei-me aos teus testemunhos… Considerei os meus caminhos, e voltei os meus pés para os teus testemunhos. Apressei-me, e não me detive, em guardar os teus mandamentos” (Sal. 119:30-31, 59-60)? És como o Salvador, desejoso de cumprir as Escrituras?
Oh, que tanto o que escreve quanto o que lê busquemos graça para orar de coração: “Guia-me pela vereda dos teus mandamentos, pois nela tenho prazer. Inclina o meu coração aos teus testemunhos… Ordena os meus passos na tua palavra, e não se apodere de mim iniquidade alguma” (Sal. 119:35-36, 133).
4. Aqui vemos a submissão do Salvador à vontade do Pai.
“Tenho sede.”
O Salvador tinha sede, e Aquele que assim tinha sede, lembremo-nos, possuía todo poder no céu e na terra. Se quisesse exercer sua onipotência, poderia ter satisfeito facilmente sua necessidade. Aquele que outrora fez brotar água da rocha ferida para refrescar Israel no deserto, tinha agora à sua disposição os mesmos recursos infinitos.
Aquele que transformou a água em vinho com uma palavra, poderia ter pronunciado aqui a palavra de poder e suprir sua própria necessidade. Mas nunca realizou um milagre para seu próprio benefício ou conforto. Quando Satanás o tentou a fazer isso, recusou-se. Por que agora se recusa a satisfazer sua necessidade urgente? Por que permanece ali na cruz com os lábios ressequidos? Porque no volume do livro onde estava escrita a vontade de Deus, estava escrito que deveria ter sede, e que em sua sede lhe dariam a beber vinagre. E Ele veio para fazer a vontade de Deus, e por isso se submeteu.
Na morte, assim como na vida, a Escritura era para o Senhor Jesus a palavra autoritativa do Deus vivo. Na tentação havia recusado suprir sua necessidade à parte dessa palavra pela qual vivia, e agora dá a conhecer sua necessidade, não para que seja suprida, mas para que a Escritura se cumpra. Observe-se: Ele não a cumpre diretamente; Deus pode cuidar disso; mas expressa sua angústia para dar ocasião ao cumprimento. Como outro disse: “A terrível sede da crucificação está sobre Ele, mas isso não é suficiente para fazer com que esses lábios ressequidos falem; mas está escrito: Na minha sede me deram a beber vinagre — isso os abre” (F. W. Grant).
Aqui, então, como sempre, Ele se mostra em obediência ativa à vontade de Deus, a qual veio cumprir. Simplesmente diz: “Tenho sede”; lhe é oferecido o vinagre, e a profecia se cumpre. Que perfeita absorção na vontade de seu Pai!
Detenhamo-nos novamente para fazer uma aplicação a nós mesmos — uma dupla aplicação. Primeiro, o Senhor Jesus se deleitou na vontade do Pai mesmo quando implicava o sofrimento da sede. Estamos nós assim rendidos a Ele? Temos buscado graça para dizer: “Não se faça a minha vontade, mas a tua”? Podemos exclamar: “Sim, Pai, porque assim te agradou”? Temos aprendido, em qualquer estado em que estejamos, a estar contentes (Fil. 4:11)?
Mas agora observemos um contraste. Ao Filho de Deus foi negado um copo de água fria para aliviar seu sofrimento — quão diferente conosco! Deus nos tem dado uma variedade de coisas para nos refrescar, e ainda assim, quão frequentemente somos ingratos! Temos coisas melhores que um simples copo de água para nos deleitarmos quando temos sede, e ainda assim não damos graças. Oh, se este clamor de Cristo fosse considerado com fé, nos faria bendizer a Deus pelo que agora quase desprezamos, e produziria contentamento em nós até mesmo pelas misericórdias mais comuns!
O Senhor da glória clamou “Tenho sede” e não teve nada, em sua extrema necessidade, que o consolasse; e tu, que mil vezes tens perdido todo direito às misericórdias temporais e espirituais, desprezas as bênçãos comuns da providência? Que é isso? Reclamas por um copo de água, tu que mereces apenas um cálice de ira? Oh, medita bem nisso e aprende a contentar-te com o que tens, ainda que seja o mais básico para a vida! Não te queixes se habitas em uma humilde morada, pois teu Salvador não tinha onde reclinar a cabeça. Não te queixes se tens apenas pão para comer, pois teu Salvador careceu dele durante quarenta dias. Não te queixes se tens apenas água para beber, pois ao teu Salvador foi negado até isso na hora de sua morte.
5. Aqui vemos como Cristo pode compadecer-se do seu povo que sofre.
“Tenho sede.”
O problema do sofrimento sempre foi algo difícil. Por que deve existir sofrimento em um mundo governado por um Deus perfeito? Um Deus que não só tem poder para evitar o mal, mas que também é amor. Por que há dor, miséria, enfermidade e morte? Ao olhar para o mundo e contemplar a multidão dos que sofrem, ficamos confusos. Este mundo é um vale de lágrimas. Uma fina camada de alegria mal consegue ocultar a triste realidade da vida.
Filosofar sobre o sofrimento traz pouco consolo. Depois de todos os nossos raciocínios, continuamos perguntando: Deus vê? Há conhecimento no Altíssimo? Ele realmente se importa? Como todas as perguntas, estas devem ser levadas à cruz. Embora ali não encontremos uma resposta completa, encontramos o suficiente para satisfazer o coração inquieto. Embora o problema não seja totalmente resolvido, a cruz lança luz suficiente para aliviar a tensão.
A cruz nos mostra que Deus não ignora nossas dores, porque na pessoa de seu Filho Ele mesmo “levou as nossas enfermidades e carregou as nossas dores” (Isa. 53:4). A cruz nos mostra que Deus não é indiferente ao nosso sofrimento, porque ao fazer-se homem, Ele mesmo sofreu. A cruz nos mostra que Deus não é alheio à dor, porque no Salvador a experimentou.
Qual é então o valor disso? Este: “Porque não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas, mas um que foi tentado em tudo à nossa semelhança, porém sem pecado” (Heb. 4:15). Nosso Redentor não está tão distante de nós a ponto de não poder entrar, com simpatia, em nossas dores, pois Ele mesmo foi o “Varão de dores”.
Aqui há consolo para o coração quebrantado. Não importa quão abatido estejas, quão difícil seja teu caminho ou quão triste tua situação, estás convidado a levar tudo ao Senhor Jesus e lançar sobre Ele toda a tua ansiedade, sabendo que Ele cuida de ti (1 Pedro 5:7). Teu corpo está cheio de dor? O d’Ele também esteve! És mal compreendido, mal julgado, mal representado? Ele também foi! Aqueles mais próximos de ti te abandonaram? A Ele também! Estás em trevas? Ele também esteve por três horas! “Por isso convinha que, em tudo, fosse semelhante aos seus irmãos, para se tornar misericordioso e fiel sumo sacerdote” (Heb. 2:17).
6. Aqui vemos a expressão de uma necessidade universal.
“Tenho sede.”
Seja expresso ou não, o homem natural em todo o mundo está clamando: “Tenho sede”. Por que este desejo constante por riquezas? Por que esta ambição por honra e aprovação do mundo? Por que esta busca frenética por prazer, passando de uma coisa a outra sem descanso? Por que esta busca por conhecimento, ciência, filosofia? Por que esta obsessão pelo novo? Por quê? Porque há um vazio na alma.
Porque há algo em todo homem que não está satisfeito. Isto é verdadeiro tanto para o milionário quanto para o camponês. Viajar por todo o mundo não traz paz. Sobre todos os poços deste mundo está escrito: “Quem beber desta água tornará a ter sede” (João 4:13).
O mesmo acontece com o religioso sem Cristo. Muitos seguem rotinas religiosas, frequentam a igreja, leem a Bíblia, oram… e ainda assim seu clamor continua sendo: “Tenho sede”.
A sede é espiritual. Por isso nada natural pode satisfazê-la. Sem saber, a alma “tem sede de Deus” (Sal. 42:2). Deus nos fez, e somente Ele pode nos satisfazer. Cristo disse: “Quem beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede” (João 4:14).
Somente Cristo pode saciar a alma. Somente Ele pode dar verdadeira paz. Leitor, como estás tu? Já descobriste que tudo é vaidade? Sentes esse vazio? Clama tua alma “Tenho sede”? Então há boas notícias: há alguém que pode saciar-te. Não é uma religião, é uma pessoa — Cristo. Ele diz: “Vinde a mim… e eu vos darei descanso” (Mateus 11:28). Vem a Ele agora, tal como estás. Vem com fé, crendo que Ele te receberá.
Vim a Jesus tal como estava,
Cansado, abatido e triste;
Encontrei n’Ele um lugar de descanso,
E Ele alegrou a minha alma.
Oh, vem a Cristo! Não demores. Estás “sedento”? Então tu és aquele a quem Ele está buscando: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos” (Mateus 5:6).
Leitor não salvo, não rejeites o Salvador, pois se morreres em teus pecados, teu clamor eterno será: “Tenho sede”. Este é o gemido dos condenados. No lago de fogo, os perdidos sofrem em meio às chamas da ira de Deus pelos séculos dos séculos. Se Cristo clamou “Tenho sede” quando sofreu a ira de Deus por apenas três horas, qual será o estado daqueles que terão de suportá-la por toda a eternidade! Quando milhões de anos tiverem passado, dez milhões mais ainda estarão por diante. Há uma sede eterna no inferno que não admite qualquer alívio.
Lembra-te das terríveis palavras do homem rico: “Então ele, clamando, disse: Pai Abraão, tem misericórdia de mim, e manda a Lázaro que molhe a ponta do dedo em água e refresque a minha língua; porque estou atormentado nesta chama” (Lucas 16:24). Oh, pensa, leitor! Se a sede física em seu extremo é insuportável mesmo quando se sofre por poucas horas, que será essa sede infinitamente maior que jamais será saciada!
Não digas que é cruel da parte de Deus tratar assim suas criaturas. Lembra-te do que Ele fez com seu próprio Filho amado quando o pecado lhe foi imputado. Certamente, aquele que despreza a Cristo merece o lugar mais ardente do inferno! Mais uma vez dizemos: recebe-o agora como teu. Recebe-o como teu Salvador, e submete-te a Ele como teu Senhor.
7. Aqui vemos a enunciação de um princípio permanente.
“Tenho sede.”
Há um sentido, um sentido real, no qual Cristo ainda tem sede. Ele tem sede do amor e da devoção dos seus. Ele anseia pela comunhão com seu povo redimido por seu sangue. Aqui está uma das grandes maravilhas da graça: um pecador redimido pode oferecer aquilo que satisfaz o coração de Cristo! Posso entender como devo valorizar o seu amor, mas que maravilhoso é que Ele — o todo suficiente — valorize o meu amor! Aprendi quão bendita é para minha alma a comunhão com Ele, mas quem pensaria que minha comunhão é bendita para Cristo? E, no entanto, assim é. Por isso Ele ainda “tem sede”. A graça nos capacita a oferecer aquilo que o refresca. Que pensamento maravilhoso!
Já notaste em João 4 que, embora Cristo tenha dito à mulher que veio ao poço: “Dá-me de beber” —porque estava “cansado” do caminho e do calor— nunca tomou água? Na salvação e fé daquela mulher samaritana encontrou aquilo que refrescou seu coração. O amor nunca se satisfaz até que haja uma resposta de amor!
Assim é com Cristo. Aqui está a chave de Apocalipse 3:20: “Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa, e cearei com ele, e ele comigo”. Isto muitas vezes se aplica aos inconversos, mas sua referência principal é à Igreja. Apresenta Cristo buscando comunhão com os seus.
Ele fala de “cear”, e nas Escrituras cear é símbolo de comunhão, assim como a Ceia do Senhor é um tempo especial de comunhão entre o Salvador e os salvos. E observa que aqui Cristo fala de uma dupla ceia: “eu cearei com ele, e ele comigo”. Não apenas é nosso privilégio inefável cear com Ele, deleitar-nos n’Ele e ter comunhão com Ele, mas Ele também “ceia” conosco.
Ele encontra em nossa comunhão algo para o seu coração, algo que o refresca, e isso é nossa devoção e nosso amor. Sim, o Cristo de Deus ainda “tem sede”, sede do afeto dos seus. Não lhe oferecerás aquilo que pode satisfazê-lo? Responde então ao seu chamado: “Põe-me como selo sobre o teu coração” (Cantares 8:6).
Conclusão do editor
A quinta palavra de Cristo na cruz —“Tenho sede”— nos conduz a contemplar uma das expressões mais profundas de sua humilhação voluntária. Aquele que é a fonte de toda vida, o que ofereceu água viva aos sedentos, agora se encontra experimentando uma sede real, intensa e dolorosa. Nesta cena vemos claramente a perfeita união de sua natureza divina e humana: verdadeiro Deus e verdadeiro homem, sofrendo em nosso lugar até as últimas consequências.
Mas esta palavra não revela apenas sofrimento físico; também aponta para o cumprimento exato do propósito eterno de Deus. Nada na cruz foi acidental, nada ficou fora do controle soberano do Pai. Mesmo em sua agonia, Cristo age em plena obediência, cumprindo as Escrituras e levando até o fim a obra que lhe foi confiada. Cada detalhe, por menor que pareça, faz parte do glorioso plano de redenção.
Além disso, nesta expressão podemos vislumbrar o custo real de nossa salvação. A sede de Cristo nos lembra que Ele suportou não apenas a dor corporal, mas também o peso do pecado e a ira divina. Seu sofrimento não foi superficial nem simbólico, mas profundo, real e suficiente para satisfazer plenamente a justiça de Deus. Aqui contemplamos o amor sacrificial de um Salvador que nada poupou para resgatar o seu povo.
Portanto, esta palavra nos chama não apenas a admirar o sacrifício de Cristo, mas a responder com fé, gratidão e entrega. Aquele que teve sede para que nós nunca mais tenhamos sede espiritual, merece toda a nossa devoção. Que ao meditar nesta cena, nosso coração seja movido a confiar mais plenamente n’Ele, a valorizar sua obra redentora e a viver em obediência Àquele que, mesmo em meio à dor, permaneceu fiel até o fim.