Resenha do editor
Continuamos com a série de sermões de A. W. Pink intitulada “The Seven Sayings of the Savior on the Cross”. Nesta ocasião, chegamos à quarta palavra, conhecida como a palavra de angústia, uma das expressões mais profundas e solenes pronunciadas por nosso Senhor na cruz.
Nestas palavras —“Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”— contemplamos o mistério mais insondável da redenção: o momento em que Cristo, carregando o pecado de seu povo, experimenta o abandono judicial de Deus. Aqui se revela a gravidade do pecado, a justiça divina e o preço infinito da nossa salvação.
Convidamos o leitor a aproximar-se com reverência deste ensinamento, onde o sofrimento de Cristo alcança seu ponto culminante, e onde o amor redentor se manifesta em sua forma mais profunda. Esta palavra nos chama não apenas a contemplar, mas a adorar o Salvador que foi desamparado para que nós nunca o sejamos.
Sermão de A. W. Pink: A palavra de angústia
“E perto da hora nona, Jesus clamou em alta voz, dizendo: Eli, Eli, lama sabactani? Isto é: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mateus 27:46).
“Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”
ESTAS SÃO PALAVRAS DE ASSOMBROSO SIGNIFICADO. A crucificação do Senhor da glória foi o acontecimento mais extraordinário que já ocorreu na terra, e este clamor daquele que sofria foi a expressão mais impactante daquela cena terrível. Que a inocência fosse condenada, que o inocente fosse perseguido, que um benfeitor fosse cruelmente executado, não era algo novo na história. Desde o assassinato do justo Abel até o de Zacarias, houve uma longa lista de martírios. Mas aquele que pendia naquela cruz central não era um homem comum: era o Filho do Homem, Aquele em quem se reuniam todas as perfeições — o Perfeito. Como sua vestimenta, seu caráter era “sem costura, tecido de alto a baixo”.
No caso de todos os demais perseguidos, havia faltas ou imperfeições que podiam dar aos seus verdugos algum motivo de acusação. Mas o juiz deste declarou: “Não encontro nele crime algum”.
E ainda mais. Este que sofria não apenas era homem perfeito, mas também o Filho de Deus. Não é estranho que o homem deseje destruir a Deus. “Diz o tolo em seu coração: Não há Deus” (Sal. 14:1); tal é o seu desejo. Mas o verdadeiramente assombroso é que Aquele que era Deus manifestado em carne se permitisse ser tratado assim por seus inimigos. É ainda mais surpreendente que o Pai, que se deleitava nele, cuja voz dos céus abertos havia declarado: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo”, o entregasse a uma morte tão vergonhosa.
“Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”
Estas são palavras de uma dor aterradora. A própria palavra “desamparado” é uma das mais trágicas em toda a linguagem humana. Que calamidades esta palavra evoca? Um homem abandonado por seus amigos, uma esposa abandonada por seu marido, uma criança abandonada por seus pais. Mas uma criatura abandonada por seu Criador, um homem abandonado por Deus — isto é o mais terrível de tudo! Este é o mal dos males, a calamidade suprema.
É verdade que o homem caído, em seu estado natural, não percebe assim. Mas aquele que aprendeu, ainda que em parte, que Deus é a soma de toda perfeição, a fonte e o fim de toda excelência, aquele cujo clamor é: “Como o cervo brama pelas correntes das águas, assim suspira por ti, ó Deus, a minha alma” (Sal. 42:1), reconhece a verdade destas palavras. O clamor dos santos em todas as épocas tem sido: “Não nos desampares, ó Deus”. Se o Senhor esconde seu rosto por um momento, é insuportável. Se isso é verdadeiro nos pecadores redimidos, quanto mais no amado Filho do Pai!
Aquele que pendia naquele madeiro maldito havia sido desde a eternidade o objeto do amor do Pai. Usando a linguagem de Provérbios 8, o Salvador sofredor era Aquele que “estava junto a Ele como arquiteto”, e era “a sua delícia dia após dia”. Sua alegria havia sido contemplar o rosto do Pai. A presença do Pai era seu lar, seu seio sua morada, e sua glória havia sido compartilhada antes que o mundo existisse.
Durante os trinta e três anos em que o Filho esteve na terra, desfrutou de uma comunhão ininterrupta com o Pai. Nunca teve um pensamento fora de harmonia com a mente do Pai, nem uma vontade distinta da sua, nem um momento fora de sua presença consciente. O que significou então ser “desamparado” por Deus? Ah! o ocultamento do rosto de Deus foi o elemento mais amargo do cálice que o Pai deu ao Redentor para beber.
“Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”
Estas são palavras de uma dor incomparável. Marcam o ponto culminante de seus sofrimentos. Os soldados o haviam ridicularizado cruelmente; colocaram-lhe uma coroa de espinhos, o açoitaram, o golpearam, cuspiram nele e arrancaram seu cabelo. Despojaram-no de suas vestes e o expuseram à vergonha pública. Contudo, Ele suportou tudo em silêncio. Traspassaram-lhe as mãos e os pés, mas suportou a cruz desprezando a vergonha. A multidão o insultava, e os ladrões também o injuriavam, mas Ele não abriu a sua boca. Diante de tudo o que sofreu às mãos dos homens, não saiu de seus lábios um único clamor.
Mas agora, quando a ira concentrada do céu cai sobre Ele, clama: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” Este é um clamor que deveria quebrantar o coração mais duro!
“Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”
Estas são palavras de profundo mistério. Antigamente, Jeová não abandonava o seu povo. Repetidas vezes foi o seu refúgio na angústia. Quando Israel clamou no Egito, Deus ouviu. Quando estiveram diante do Mar Vermelho, Ele os livrou. Quando os três hebreus foram lançados na fornalha, Ele esteve com eles. Mas aqui, na cruz, ergue-se um clamor mais profundo do que todos os anteriores — e não há resposta!
Aqui há uma situação mais terrível que o Mar Vermelho: inimigos mais implacáveis cercam este homem, e não há libertação. Aqui há um fogo mais ardente que a fornalha da Babilônia, e não há quem o acompanhe. Está abandonado por Deus!
Sim, este clamor do Salvador é profundamente misterioso. Antes havia dito: “Pai, perdoa-lhes”, e isto compreendemos. Depois disse ao ladrão: “Hoje estarás comigo no paraíso”, e também compreendemos. Em seguida falou à sua mãe e a João, e isto também entendemos. Mas agora pronuncia um clamor que nos deixa sem palavras. Davi disse: “Nunca vi o justo desamparado”, mas aqui vemos o Justo sendo abandonado.
“Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”
Estas são palavras da mais profunda solenidade. Este foi um clamor que fez tremer a terra e ressoou por todo o universo. Que mente pode compreender este mistério? Quem pode analisar o significado deste clamor em meio à escuridão?
“Por que me desamparaste?” nos introduz no Santo dos Santos. Aqui, mais do que em qualquer outro lugar, devemos tirar o calçado da curiosidade humana. É um terreno sagrado. Não é lugar para especular, mas para admirar e adorar.
Mas, embora estas palavras sejam de assombroso significado, de dor aterradora, de profundo mistério, de patetismo único e de profunda solenidade, não somos deixados na ignorância quanto ao seu significado. É verdade que este clamor é profundamente misterioso, mas também possui uma explicação bendita. As Sagradas Escrituras não deixam dúvida de que estas palavras de dor incomparável são tanto a manifestação mais plena do amor divino quanto a demonstração mais solene da justiça inflexível de Deus. Que todo pensamento seja levado cativo a Cristo e que nossos corações sejam devidamente solenizados ao contemplar mais de perto esta quarta palavra do Salvador moribundo. :contentReference[oaicite:0]{index=0}
1. Aqui vemos o terrível do pecado e o caráter de sua paga.
“Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”
O Senhor Jesus foi crucificado ao meio-dia, e à luz do Calvário tudo foi revelado em seu verdadeiro caráter. Ali a natureza das coisas foi plenamente manifestada. A depravação do coração humano — seu ódio contra Deus, sua maldade ingrata, seu amor pelas trevas mais do que pela luz, sua preferência por um assassino em lugar do Príncipe da vida — foi claramente exposta. O caráter terrível do diabo — sua inimizade contra Deus, seu ódio insaciável contra Cristo, seu poder para induzir o homem a trair o Salvador — foi completamente revelado.
Da mesma forma, as perfeições da natureza divina — a santidade de Deus, sua justiça inflexível, sua ira justa e sua graça incomparável — foram plenamente manifestadas. E também se mostrou o pecado em toda a sua maldade, corrupção e rebelião. Aqui vemos até onde o pecado pode chegar: começou como autodestruição em Adão, depois como homicídio em Caim, e na cruz atinge o seu clímax no deicídio: o homem crucificando o Filho de Deus.
Mas não vemos apenas a gravidade do pecado, mas também a natureza de sua paga. “O salário do pecado é a morte” (Rom. 6:23). A morte é a consequência do pecado. Se não houvesse pecado, não haveria morte. Mas, o que é a morte? Não é apenas a cessação da vida física, mas algo muito mais profundo: é a morte espiritual. O pecado separa o homem de Deus, que é a fonte de toda vida.
Isto foi visto no Éden. Antes da queda, Adão desfrutava comunhão com Deus, mas depois do pecado, escondeu-se. O mesmo aconteceu com Caim: “Da tua presença serei escondido” (Gênesis 4:14). O pecado exclui da presença de Deus. Isto foi ensinado a Israel: embora Deus habitasse no meio deles, sua presença estava velada no Santo dos Santos, inacessível exceto pelo sumo sacerdote uma vez ao ano.
A morte, portanto, não é apenas física, mas também penal: a separação da alma de Deus. Assim como a morte física é a separação da alma do corpo, a morte espiritual é a separação da alma de Deus. Por isso, na cruz, Cristo estava recebendo a paga do pecado que correspondia ao seu povo. Ele não tinha pecado próprio, mas levava os nossos pecados. Estava sofrendo em nosso lugar. E por isso clamou: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”
Assim será também o destino daqueles que rejeitam a Cristo: “serão castigados com eterna perdição, excluídos da presença do Senhor” (2 Tess. 1:9). Isto é a segunda morte: não a aniquilação, mas a separação eterna de Deus. Essa separação foi a que Cristo sofreu na cruz durante aquelas horas de escuridão.
2. Aqui vemos a santidade absoluta e a justiça inflexível de Deus.
“Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”
A tragédia do Calvário deve ser contemplada sob vários ângulos. Ali o homem mostrou sua maldade ao crucificar o Perfeito. Satanás mostrou seu ódio ao ferir o Filho. Cristo realizou a obra de redenção morrendo pelos pecadores. Mas também, na cruz, Deus realizou uma obra: manifestou sua santidade e satisfez sua justiça ao derramar sua ira sobre Aquele que foi feito pecado por nós.
Quem pode descrever a santidade de Deus? É tão santo que o homem não pode contemplá-lo e viver. É tão santo que os céus não são puros diante de seus olhos. É tão santo que os serafins cobrem seus rostos. Abraão disse: “Sou pó e cinza”. Jó disse: “Abomino-me”. Isaías clamou: “Ai de mim!”. Daniel perdeu toda a sua força diante de sua presença.
Deus é tão santo que não pode olhar para o pecado. E como Cristo levava nossos pecados, o Pai desviou o seu rosto dele. Deus colocou em Cristo as nossas iniquidades, e sua justiça exigia que a ira divina fosse derramada sobre o substituto. Por isso o Salvador foi desamparado.
“Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” Esta foi uma pergunta que nenhum dos que estavam ao redor da cruz podia responder; foi uma pergunta que, naquele momento, nenhum dos apóstolos podia responder; sim, foi uma pergunta que deixou perplexos até mesmo os anjos do céu. Mas o Senhor Jesus respondeu à sua própria pergunta, e sua resposta encontra-se no Salmo 22. Este salmo oferece uma maravilhosa visão profética de seus sofrimentos. O salmo começa com as mesmas palavras desta quarta expressão de nosso Salvador na cruz, e continua com lamentos profundos no mesmo tom até que, no versículo 3, encontramos estas palavras: “Mas tu és santo”. Ele não se queixa de injustiça, mas reconhece a justiça de Deus: tu és santo e justo ao exigir de mim toda a dívida da qual sou fiador; levo todos os pecados de todo o meu povo, e portanto te justifico, ó Deus, ao ferir-me com tua espada despertada. Tu és santo; és justo quando julgas.
Na cruz, então, mais do que em qualquer outro lugar, vemos a infinita maldade do pecado e a justiça de Deus em seu castigo. Foi o mundo antigo destruído pelo dilúvio? Foram Sodoma e Gomorra consumidas por fogo e enxofre? Foram as pragas enviadas sobre o Egito e Faraó e seu exército afogados no Mar Vermelho? Nestes eventos podemos ver a culpa do pecado e o ódio de Deus contra ele; mas muito mais claramente o vemos aqui, quando Cristo é abandonado por Deus.
Vai ao Gólgota e contempla o Homem que é o companheiro de Jeová bebendo o cálice da indignação de seu Pai, ferido pela espada da justiça divina, esmagado pelo próprio Senhor, sofrendo até a morte, porque Deus “não poupou o seu próprio Filho” quando ele pendia no lugar do pecador.
Observa como a própria natureza antecipou esta terrível tragédia: a forma do terreno como um crânio. Observa a terra tremendo sob o peso da ira derramada. Observa os céus quando o sol se afasta de tal cena e a terra é coberta de escuridão. Aqui vemos a terrível ira de um Deus que castiga o pecado. Nem todos os juízos do Antigo Testamento, nem todas as taças de ira que ainda serão derramadas na grande tribulação, nem o choro e ranger de dentes dos condenados no lago de fogo deram, nem darão jamais, uma manifestação tão clara da justiça inflexível e da santidade infinita de Deus, nem de seu ódio absoluto ao pecado, como a ira que se acendeu contra o seu próprio Filho na cruz.
Porque Ele estava suportando o juízo do pecado, foi abandonado por Deus. Ele, que era o Santo, cuja própria aversão ao pecado era infinita, que era a pureza encarnada (1 João 3:3), foi feito pecado por nós (2 Cor. 5:21); por isso se curvou sob a tempestade da ira divina, na qual se manifestou o desagrado de Deus contra os inúmeros pecados de uma multidão que ninguém pode contar. Esta é, então, a verdadeira explicação do Calvário. O caráter santo de Deus não podia fazer menos do que julgar o pecado, ainda que este estivesse sobre o próprio Cristo. Na cruz, então, a justiça de Deus foi satisfeita e sua santidade plenamente vindicada.
3. Aqui vemos a explicação de Getsêmani.
“Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”
À medida que nosso bendito Senhor se aproximava da cruz, o horizonte se tornava cada vez mais sombrio para Ele. Desde a sua infância havia sofrido às mãos dos homens; desde o início de seu ministério público havia sofrido às mãos de Satanás; mas na cruz iria sofrer sob a mão de Deus. O próprio Jeová iria ferir o Salvador, e isso eclipsava tudo o mais.
Em Getsêmani entrou antecipadamente na escuridão daquelas três horas da cruz. Por isso deixou os três discípulos na entrada do jardim, pois devia pisar o lagar sozinho. “A minha alma está profundamente triste”, clamou. Não era um temor à morte física. Não era o pensamento da traição de um amigo próximo, nem o abandono de seus discípulos, nem os insultos, os açoites ou os cravos o que o oprimia. Não, tudo isso, embora doloroso, era nada comparado ao que iria sofrer como o portador do pecado.
“Então chegou Jesus com eles a um lugar chamado Getsêmani, e disse aos seus discípulos: Assentai-vos aqui, enquanto vou ali orar. E levando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se muito. Então lhes disse: A minha alma está profundamente triste até a morte; ficai aqui e vigiai comigo. E, indo um pouco adiante, prostrou-se sobre o seu rosto, orando e dizendo: Pai meu, se é possível, passa de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu” (Mateus 26:36-39).
Aqui Ele vê as nuvens escuras se levantarem; contempla a terrível tempestade que se aproxima; antecipa o horror indescritível daquelas três horas de trevas. “A minha alma está profundamente triste”, diz. O grego é enfático: estava cercado de tristeza, completamente imerso na antecipação da ira de Deus. Todas as faculdades de sua alma eram abaladas pela angústia.
Marcos usa outra expressão: “Começou a ter pavor” (14:33), indicando uma intensidade tal que faz estremecer todo o ser. E acrescenta: “e a angustiar-se profundamente”, mostrando o abatimento total de seu espírito, seu coração derretendo diante do cálice que devia beber.
Mas Lucas utiliza os termos mais fortes: “E, estando em agonia, orava mais intensamente; e o seu suor tornou-se como grandes gotas de sangue que caíam até o chão” (Lucas 22:44). A palavra grega para “agonia” implica uma luta intensa. Antes havia lutado contra homens e contra Satanás, mas agora enfrentava o cálice que Deus lhe dava. Era o cálice da ira pura de Deus contra o pecado.
Isso explica por que disse: “Se é possível, passa de mim este cálice”. O cálice simboliza comunhão, mas não há comunhão na ira, apenas no amor. Contudo, embora implicasse separação, disse: “Não seja como eu quero, mas como tu”.
Sua angústia foi tão grande que seu suor foi como grandes gotas de sangue. Cremos que realmente derramou sangue. A ênfase está na realidade desse sofrimento. E o lugar era apropriado: Getsêmani, que significa “prensa de azeite”. Ali as azeitonas eram esmagadas até extrair sua essência. Assim também o Salvador foi oprimido sob o peso do juízo. Foi o prelúdio da cruz, um lugar de agonia indescritível. Em Getsêmani começou a beber o cálice; na cruz o bebeu até o fim.
4. Aqui vemos a fidelidade inabalável do Salvador para com Deus.
“Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”
O abandono do Redentor por Deus foi um fato solene, e uma experiência que não lhe deixou outro sustento senão os apoios de sua fé. A posição de nosso Salvador na cruz foi absolutamente única. Isso pode ser visto facilmente ao contrastar suas próprias palavras durante seu ministério público com aquelas pronunciadas na própria cruz. Antes havia dito: “Eu sabia que sempre me ouves” (João 11:42); agora clama: “Deus meu, clamo de dia, e não respondes” (Sal. 22:2). Antes havia dito: “Aquele que me enviou está comigo; o Pai não me deixou só” (João 8:29); agora clama: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” :contentReference[oaicite:0]{index=0}
Agora não tinha absolutamente nada sobre o que se apoiar, exceto o pacto e a promessa de seu Pai; e em seu clamor de angústia sua fé é manifestada. Foi um clamor de dor, mas não de desconfiança. Deus havia se retirado dele, mas observe-se como sua alma ainda se apega a Deus. Sua fé triunfou ao se apegar a Deus mesmo em meio à escuridão. “Deus meu”, diz, “Deus meu”, tu em quem há força infinita e eterna; tu que até agora sustentaste minha humanidade, e conforme tua promessa tens sustentado teu servo — oh, não te afastes de mim agora. Deus meu, em ti me apoio. Quando todos os consolos visíveis e sensíveis haviam desaparecido, ao apoio invisível e refúgio de sua fé recorreu o Salvador.
No Salmo 22, a fidelidade inabalável do Salvador para com Deus é muito evidente. Neste precioso salmo se revelam as profundezas de seu coração. Ouçamo-lo:
“Nossos pais confiaram em ti; confiaram, e tu os livraste. Clamaram a ti, e foram livrados; confiaram em ti, e não foram envergonhados. Mas eu sou verme, e não homem; opróbrio dos homens e desprezado do povo. Todos os que me veem zombam de mim; esticam os lábios e meneiam a cabeça, dizendo: Confiou no Senhor; que Ele o livre; que o salve, pois nele tem prazer. Mas tu és o que me tiraste do ventre; o que me fez confiar desde os seios de minha mãe. Sobre ti fui lançado desde o nascimento; desde o ventre de minha mãe, tu és o meu Deus” (Sal. 22:4-10).
O mesmo ponto que seus inimigos tentavam usar contra Ele era sua fé em Deus. Ridicularizavam-no por confiar em Jeová — se realmente confiava no Senhor, o Senhor o livraria. Mas o Salvador continuou confiando mesmo quando não houve libertação, confiou ainda que foi desamparado por um tempo. Havia sido lançado sobre Deus desde o ventre, e ainda na hora de sua morte é encontrado confiando em Deus. Continua:
“Não te afastes de mim, porque a angústia está perto; pois não há quem ajude. Muitos touros me cercaram; fortes touros de Basã me rodearam. Abriram contra mim a boca, como um leão que despedaça e ruge. Sou derramado como água, e todos os meus ossos se desconjuntaram; meu coração é como cera, derrete-se dentro de mim. Secou-se o meu vigor como um caco, e a língua se me apega ao paladar, e me puseste no pó da morte. Pois cães me cercaram; um bando de malfeitores me rodeou; traspassaram minhas mãos e meus pés. Posso contar todos os meus ossos; eles me observam e me encaram. Repartem entre si as minhas vestes, e lançam sortes sobre a minha roupa. Mas tu, Senhor, não te afastes de mim; força minha, apressa-te em socorrer-me. Livra a minha alma da espada, e a minha vida do poder do cão” (Sal. 22:11-20).
Jó havia dito de Deus: “Ainda que Ele me mate, nele esperarei”; e embora a ira de Deus contra o pecado repousasse sobre Cristo, ainda assim Ele confiou. Sim, sua fé fez mais do que confiar, triunfou: “Salva-me da boca do leão; sim, livra-me dos chifres dos búfalos” (Sal. 22:21).
Oh, que exemplo o Salvador deixou ao seu povo! É relativamente fácil confiar em Deus quando o sol brilha; a prova vem quando tudo está escuro. Mas uma fé que não descansa em Deus tanto na adversidade quanto na prosperidade não é a fé dos escolhidos de Deus. Devemos ter uma fé com a qual viver — fé verdadeira — se quisermos ter uma fé com a qual morrer. O Salvador havia sido lançado sobre Deus desde o ventre de sua mãe, havia confiado em Deus momento a momento durante aqueles trinta e três anos; o que há de estranho, então, que na hora da morte ainda seja encontrado confiando em Deus? Irmão cristão, tudo pode estar escuro contigo; pode ser que já não vejas a luz do rosto de Deus. A providência parece franzir o cenho contra ti; ainda assim, diga: “Eli, Eli, Deus meu, Deus meu”.
5. Aqui podemos ver a base da nossa salvação.
“Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”
Deus é santo e, portanto, não pode olhar para o pecado. Deus é justo e, portanto, julga o pecado onde quer que ele se encontre. Mas Deus também é amor: Deus se deleita na misericórdia, e por isso a sabedoria infinita idealizou um caminho pelo qual a justiça pudesse ser satisfeita e a misericórdia pudesse fluir livremente para os pecadores culpados. Este caminho foi o caminho da substituição: o justo sofrendo pelos injustos.
O próprio Filho de Deus foi o escolhido para ser o substituto, pois nenhum outro era suficiente. Por meio de Naum havia sido feita a pergunta: “Quem subsistirá diante da sua indignação? E quem permanecerá no ardor da sua ira?” (1:6). Esta pergunta encontrou sua resposta na adorável pessoa de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Somente Ele podia “permanecer”. Somente Um podia suportar a maldição e ainda assim levantar-se vitorioso sobre ela. Somente Um podia suportar toda a ira vingadora e ainda assim engrandecer a lei e torná-la honrosa. Somente Um podia permitir que seu calcanhar fosse ferido por Satanás e, ainda nessa ferida, destruir aquele que tinha o poder da morte.
Deus lançou mão de um que era “poderoso” (Sal. 89:19), alguém que não era menos que o Companheiro de Jeová, o resplendor de sua glória, a expressão exata de sua substância. Assim vemos que o amor sem limites, a justiça inflexível e o poder onipotente se uniram para tornar possível a salvação daqueles que creem.
Na cruz, todas as nossas iniquidades foram colocadas sobre Cristo, e por isso o juízo divino caiu sobre Ele. Não havia maneira de transferir o pecado sem transferir também a sua pena. Tanto o pecado quanto a sua punição foram transferidos ao Senhor Jesus. Na cruz, Cristo estava fazendo propiciação, e a propiciação é unicamente para com Deus. Era uma questão de satisfazer as exigências da santidade de Deus; era uma questão de cumprir os requisitos de sua justiça.
Não somente o sangue de Cristo foi derramado por nós, mas também para Deus: “entregou-se a si mesmo por nós, oferta e sacrifício a Deus, em aroma suave” (Efésios 5:2). Assim foi prefigurado na noite memorável da Páscoa no Egito: o sangue do cordeiro deveria estar onde o olhar de Deus pudesse vê-lo — “E verei o sangue, e passarei por vós”.
A morte de Cristo na cruz foi uma morte de maldição: “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós; porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro” (Gál. 3:13). A “maldição” é a alienação de Deus. Isso se vê nas palavras que Cristo dirá aos que estarão à sua esquerda: “Apartai-vos de mim, malditos” (Mateus 25:41). A maldição é o banimento da presença e da glória de Deus.
Isso explica o significado de vários tipos do Antigo Testamento. O novilho sacrificado no Dia da Expiação, depois de ter seu sangue aspergido, era levado para fora do acampamento e queimado completamente (Levítico 16:27). O acampamento era o lugar onde Deus habitava; ser levado para fora significava ser expulso de sua presença. O mesmo ocorria com o leproso: devia viver fora do acampamento (Lev. 13:46), pois representava o pecador.
Também vemos aqui o antítipo da serpente de bronze. Por que Deus ordenou levantar uma serpente? Porque representava a maldição. Assim Cristo foi feito maldição por nós. Na cruz, Ele estava cumprindo essas figuras: estava fora do acampamento, como o leproso, feito pecado por nós; como a serpente, feito maldição por nós.
Por isso também a coroa de espinhos: símbolo da maldição. Elevado na cruz, com sua fronte cercada de espinhos, mostrava que estava levando a maldição por nós.
Aqui também está o significado das três horas de escuridão que cobriram a terra como um manto de morte. Foi uma escuridão sobrenatural. Não era noite, pois o sol estava no seu zênite. Como bem disse o Sr. Spurgeon: “Era meia-noite ao meio-dia”. Não foi um eclipse. Astrônomos competentes nos dizem que no momento da crucificação a lua estava em seu ponto mais distante do sol. Mas este clamor de Cristo nos dá o significado da escuridão, assim como a escuridão nos dá o significado desse amargo clamor. Uma única coisa pode explicar esta escuridão, assim como uma única coisa pode interpretar este clamor: que Cristo havia tomado o lugar dos culpados e perdidos, que estava no lugar daquele que leva o pecado, que estava suportando o juízo devido ao seu povo, que Aquele que não conheceu pecado foi feito pecado por nós. :contentReference[oaicite:0]{index=0}
Esse clamor foi pronunciado para que nos fosse permitido conhecer o que ocorreu ali. Foi a manifestação da expiação, por assim dizer, pois três é sempre o número de manifestação. Deus é luz, e a “escuridão” é o sinal natural de sua retirada. O Redentor foi deixado sozinho com o pecado do pecador: essa foi a explicação das três horas de escuridão. Assim como haverá sobre os condenados uma dupla miséria no lago de fogo — a dor dos sentidos e a dor da perda — assim também, de modo correspondente, Cristo sofreu a ira derramada de Deus e também a retirada de sua presença e comunhão.
Para o crente, a cruz é interpretada em Gálatas 2:20: “Estou crucificado com Cristo”. Ele foi meu substituto; Deus me considerou um com o Salvador. Sua morte foi a minha. Ele foi ferido por minhas transgressões e moído por minhas iniquidades. O pecado não foi simplesmente afastado, mas removido. Como outro disse: “Porque Deus julgou o pecado no Filho, agora aceita o pecador crente no Filho”. Nossa vida está escondida com Cristo em Deus (Col. 3:3). Estou encerrado em Cristo porque Cristo foi excluído de Deus.
Ele sofreu em nosso lugar, assim salvou o seu povo;
A maldição que caiu sobre sua cabeça, era a que por direito nos correspondia. A tempestade que inclinou sua bendita cabeça, agora está acalmada para sempre, e o descanso divino é meu em seu lugar, enquanto a glória coroa sua fronte.
Aqui, então, está a base da nossa salvação. Nossos pecados foram levados. As demandas de Deus contra nós foram completamente satisfeitas. Cristo foi desamparado por Deus por um tempo, para que possamos desfrutar de sua presença para sempre. “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” Que toda alma crente responda: Ele entrou na terrível escuridão para que eu caminhasse na luz; Ele bebeu o cálice de dor para que eu bebesse o cálice de alegria; Ele foi desamparado para que eu fosse perdoado.
6. Aqui vemos a evidência suprema do amor de Cristo por nós.
“Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”
“Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos” (João 15:13). Mas a grandeza do amor de Cristo só pode ser estimada quando somos capazes de medir o que esteve implicado no “dar a sua vida”. Como vimos, significou muito mais do que a morte física, embora esta fosse de uma vergonha indescritível e de um sofrimento inefável. Significou que teve de tomar o nosso lugar e ser feito pecado por nós, e o que isso implicava só pode ser entendido à luz de sua pessoa.
Imagina uma mulher perfeitamente honrada e virtuosa sendo obrigada a conviver por um tempo com os mais vis e impuros. Imagina-a encerrada em um lugar de iniquidade, rodeada de homens e mulheres degradados, sem possibilidade de escape. Podes estimar sua repulsa diante da linguagem obscena, da embriaguez, do ambiente corrupto? Podes imaginar o sofrimento de sua alma em meio a tal impureza? Mas esta ilustração é insuficiente, pois não existe uma mulher absolutamente pura.
Mas Cristo era puro; absolutamente puro. Ele era o Santo. Tinha um ódio infinito ao pecado. Abominava-o. Sua alma santa se retraía diante dele. Mas na cruz, todas as nossas iniquidades foram colocadas sobre Ele, e o pecado — essa coisa vil — enroscou-se ao seu redor como uma serpente horrível. E ainda assim, sofreu voluntariamente por nós. Por quê? Porque nos amou: “tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (João 13:1).
Mas há mais: a grandeza do amor de Cristo só pode ser estimada quando medimos a ira de Deus que foi derramada sobre Ele. Foi isso que fez sua alma estremecer. O que isso significou para Ele pode ser visto nos Salmos, onde ouvimos seus clamores:
“Salva-me, ó Deus, porque as águas entraram até à minha alma. Estou afundado em lama profunda, onde não posso firmar os pés; entrei em profundezas de águas, e a corrente me submerge. Estou cansado de clamar; a minha garganta se secou; os meus olhos desfalecem esperando pelo meu Deus.
Tira-me do lodo, e não seja eu submergido; seja eu livrado dos que me odeiam e das profundezas das águas. Não me leve a corrente das águas, nem me engula o abismo, nem o poço feche sobre mim a sua boca.
Não escondas de teu servo o teu rosto, porque estou angustiado; ouve-me depressa. Aproxima-te da minha alma, redime-a; livra-me por causa dos meus inimigos. Tu sabes a minha afronta, a minha vergonha e a minha confusão; diante de ti estão todos os meus adversários. O escárnio quebrou o meu coração, e estou desfalecido; esperei por quem se compadecesse de mim, mas não houve; e por consoladores, mas não os achei” (Sal. 69:1-3, 14-15, 17-20).
E novamente: “Um abismo chama outro abismo ao ruído das tuas cachoeiras; todas as tuas ondas e vagas passaram sobre mim” (Sal. 42:7). O ódio de Deus ao pecado desceu como um dilúvio sobre aquele que levava o pecado. Olhando para a cruz, clamou: “Não vos comove isto, a todos vós que passais pelo caminho? Olhai, e vede se há dor semelhante à minha dor” (Lam. 1:12).
Aqui temos apenas uma ideia do horror indescritível que o Santo contemplou nessas três horas, onde se concentrou o equivalente de um inferno eterno. O amado do Pai teve o rosto de Deus oculto; teve de ser deixado na escuridão exterior.
Aqui há um amor incomparável. “Se é possível, passa de mim este cálice”, clamou. Mas não era possível salvar o seu povo se não bebesse esse cálice. E como não havia outro que pudesse bebê-lo, Ele o bebeu. Bendito seja o seu nome! Onde o pecado levou o homem, o amor levou o Salvador.
7. Aqui vemos a destruição da falsa esperança.
“Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”
Este clamor anuncia a condição final de todo perdido: ser abandonado por Deus. Hoje ensina-se falsamente que Deus não julgará. Mas isso é o mesmo que disse a serpente no Éden. Deus disse: morrerás; a serpente disse: não morrerás. Quem tinha razão? Deus.
Deus é misericordioso, mas sua misericórdia tem limite. O dia da graça terminará. A morte pode chegar a qualquer momento, e depois vem o juízo. Deus não agirá com misericórdia, mas com justiça. “Quem não crer será condenado” (Marcos 16:16).
Se Deus não poupou o seu próprio Filho quando levava o pecado, como escapará aquele que rejeita a Cristo? Se Cristo foi abandonado por três horas, o incrédulo será separado de Deus para sempre.
“Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”
Aqui houve um clamor de desolação — leitor, que nunca o experimentes.
Aqui houve um clamor de separação — leitor, que nunca o sofras.
Aqui houve um clamor de expiação — leitor, apropria-te de sua salvação.
Conclusão
A palavra de angústia nos introduz no ponto mais profundo e solene de toda a obra redentora de Cristo. Aqui não contemplamos apenas o sofrimento físico do Salvador, mas o mistério insondável de seu abandono sob a justiça divina. Aquele que sempre havia desfrutado de perfeita comunhão com o Pai, agora é desamparado, não por falta própria, mas porque levava sobre si o pecado de seu povo.
Neste clamor —“Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”— vemos reveladas simultaneamente a gravidade infinita do pecado e a santidade perfeita de Deus. O pecado não podia ser ignorado, devia ser julgado; e foi julgado em Cristo. Ali, na cruz, a justiça foi satisfeita e a graça abriu o seu caminho para salvar os pecadores. Este é o fundamento firme da nossa esperança: Cristo foi desamparado para que nós nunca o sejamos.
Mas esta palavra também é uma advertência solene. Se o Filho de Deus não foi poupado quando levou o pecado, o que será daqueles que rejeitam o seu sacrifício? A cruz não apenas revela o amor de Deus, mas também o seu juízo. Portanto, leitor, não endureças o teu coração. Corre a Cristo, confia na sua obra, e recebe o perdão que Ele comprou a tão alto preço. E tu, crente, contempla este mistério com reverência, e responde com uma vida de adoração, gratidão e entrega total Àquele que foi desamparado por amor a ti.